Por Igor Cardoso
O dia de hoje - 22 de dezembro - assinala uma
relevante efeméride para a história do município de Garanhuns, porquanto foi
nesta mesma data, há exatos dois anos, que, pode-se dizer, principiou a
retomada do movimento de preservação da memória local, na esteira do que fora
feito, décadas antes, por insignes como Sales Vila Nova, Ruber van der Linden,
João de Deus de Oliveira Dias, Alfredo Leite Cavalcanti, Alberto da Silva Rego
e Alfredo Vieira, entre outros.
Naquela tarde de sábado de fins de 2012, às 16h, um grupo de historiadores,
pesquisadores e entusiastas - Anchieta Gueiros, Antônio Vilela, Audálio Filho,
Edmilson Vieira, Elias Mouret e este que vos escreve, Ígor Cardoso -
reuniram-se nas dependências da Academia de Letras de Garanhuns, nossa instituição-anfitriã,
e, recepcionados pelo presidente João Marques, votamos e aprovamos os Estatutos
do nascente Instituto Histórico, Geográfico e Cultural de Garanhuns, baseados
no do Instituto Pernambucano, ocasião em que também elegemos a primeira
diretoria.
Em realidade, aquela reunião era a segunda que
ocorria naquele ano, tendente à fundação do Sodalício. Uma primeira acontecera
intencionalmente em um momento ainda mais significativo para a municipalidade -
o 10 de março, data de criação da Vila de Garanhuns pelo Príncipe Regente -, da
qual participaram praticamente os mesmos membros, com alguns acréscimos -
vem-me à cabeça os de Maxwell Bento e Ronaldo César - e algumas ausências.
Tratando daquela primeira reunião inaugural, nosso principal mentor, o confrade
Audálio Filho, redigiu as seguintes linhas:
Imbuídos desse amor pela História desta Terra das Sete Colinas é que estamos,
juntamente com outros e outras garanhuenses, propondo-nos a criar o Instituto
Histórico e Geográfico de Garanhuns, buscando, pela preservação da memória
material e imaterial do município, suprir a lacuna de tanto descaso para com a
nossa histórica cidade. Parabéns, Garanhuns, pelos 201 anos de emancipação
política! O nosso presente será a luta do Instituto Garanhuns para honrar seu passado,
seu presente e seu futuro!
As palavras de Audálio foram muito felizes, sobretudo por aludirem às razões
que determinaram a criação do nosso Instituto: em síntese, o descaso para com a
História da "pólis simoense". Com efeito, devido a essa indiferença,
o ano anterior, marco do bicentenário da conquista da nossa autonomia política
(2011), transcorrera sem que qualquer menção oficial ou extra-oficial fosse
feita à efeméride. Àquele tempo, Garanhuns, a exemplo do que ainda ocorre com
tantos outros municípios do Estado, continuava comemorando sua Data Cívica em
momento distinto do da consecução da autonomia - no caso, no de sua elevação à
honrosa categoria de cidade (1879).
A gravíssima negligência em relação ao marco do bicentenário foi um dos principais
motivos, senão o principal, a conduzir os sócios fundadores a optarem por
agregar-se em uma instituição com voz ativa para lutar pela preservação da
memória local. E, por essa mesma razão, a correção da Data Cívica passou, desde
então, a constituir o nosso pleito-síntese.
A 10 de março de 2012, vinha à lume, no blog do confrade Ronaldo César, o bem
fundamentado artigo de Audálio "Garanhuns completa 201 anos neste sábado,
10 de março - É o que defende novo Instituto de História, Geografia e Cultura
que está sendo criado na cidade!", de onde, aliás, extraímos o excerto
acima transcrito. Plantada a semente, no ínterim entre o 10 de março e o 22 de
dezembro, maturou-se a ideia, sendo traçados os principais objetivos, e
arregimentaram-se novas e importantes forças. Na segunda reunião inaugural,
todos estavam cientes de que o Instituto pautar-se-ia pelos objetivos concretos
de: correção da Data Cívica; consecução de uma sede para as futuras instalações
de um Museu Histórico; e permanente movimento de preservação da memória, com a
mobilização dos munícipes.
Aprovados os Estatutos, o primeiro nome cogitado para a presidência - que,
inclusive, contava com a aprovação unânime de todos, por aclamação - foi o de
Audálio, mas, por questões de força maior, que inviabilizavam que ele assumisse
a titularidade, foi ele escolhido para a vice-presidência. Para a presidência,
então, após decidirmos que, neste momento inicial, seria ideal que o ocupante
do cargo fosse alguém domiciliado e residente em Garanhuns, apontamos o nome do
historiador e escritor Cláudio Gonçalves, especialista no episódio da Hecatombe
de 1917. Cláudio não havia podido comparecer à reunião, mas, informado da
escolha, logo aceitou o desafio.
A primeira diretoria ficou assim composta:
Presidente: José Cláudio Gonçalves de Lima
Vice-Presidente: Audálio Ramos Machado Filho
Secretária-Geral: Ivanice Ramos Machado
Diretor Fiscal: Anchieta Gueiros de Barros
Diretor de Cultura: Antonio Vilela de Sousa
Diretor de Comunicação: Ronaldo Cesar Gonçalves de Carvalho
Conselho: Edmilson Vieira, Ígor Cardoso e João Marques dos Santos
Vencida essa etapa embrionária, o próximo passo foi o de proceder com o
registro dos Estatutos em cartório, dotando a instituição de personalidade
jurídica, o que ocorreu no dia 18 de janeiro de 2013. Nas sessões legislativas
de 23 e 25 de abril de 2013, o Instituto foi, então, considerado pela Câmara
Municipal de Vereadores como órgão de utilidade pública, conforme projeto de
lei de autoria do vereador Audálio Ramos Machado Filho, aprovado em primeira e
segunda votações. Esses foram, portanto, os marcos formais de nascimento e de
reconhecimento oficial: doravante, Garanhuns já possuía o seu Instituto
Histórico.
Os meses que se seguiram assistiram à adesão à causa de novos sócios, entre os
quais Edilson Nunes Macedo, José Carlos de Souza Guedes, Ivonete Batista
Xavier, Jakson Fitipaldi, Marcílio Reinaux, Mariana Gueiros, Paulo Henrique
Dias, Fernando Monteiro, entre outros. Também testemunharam a movimentação dos membros para dar
cabo de dois dos desideratos prioritários aos quais nos referimos: a consecução
da sede e a correção da Data Cívica.
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Sede do IHGG |
Em relação ao primeiro, na reunião inicial do
Instituto com o prefeito Izaías Régis, em 24 de janeiro de 2013, já foi obtido
do edil, simpático à causa, o compromisso de proceder com a cessão do imóvel à
Praça Dom Moura, n. 44, para servir de sede ao Sodalício. Trata-se de casarão
bastante emblemático para a História do município, dos tempos áureos do café,
projetado pelo arquiteto italiano Bruno Giorgio, em estilo eclético, e
construído em 1919, sob encomenda do prefeito José de Almeida Filho.
Posteriormente, passou à propriedade do também político Souto Filho,
notabilizando-se como seu "quartel-general" na cidade, até ser
adquirido pela família Neves e, em 2004, pela Prefeitura, na gestão do prefeito
Luiz Carlos de Oliveira.
Ainda no primeiro semestre de 2013, atendendo a projeto de iniciativa do
Executivo, que o enviou já com o termo de cessão assinado, a Câmara de
Vereadores autorizou o pleito de cessão de imóvel para o Instituto, o que
ocorreu nas sessões dos dias 02 e 07 de maio.
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Carta Régia |
Em relação ao segundo objetivo, por sua vez, é
digno de nota o esforço dos presidente e vice-presidente, Cláudio Gonçalves e
Audálio Filho, no sentido de resgatarem, respectivamente, uma cópia do
manuscrito original da Carta Régia de 10 de março de 1811, e cópias de antigas
leis municipais, entre as quais uma de autoria do próprio Alfredo Leite
Cavalcanti, que confirmavam que, no passado, já se comemorara o Dia de
Garanhuns no momento correto.
Todo esse material foi posto à disposição da população por meio dos blogs de
notícias e formalmente apresentado às entidades do Poder Público. A iniciativa
de recuperar o Dia de Garanhuns partiu do próprio Executivo, que enviou para
aprovação da Câmara projeto de lei nesse sentido. O projeto recebeu alguns
substitutivos e, após louváveis intercessões do confrade Antônio Vilela, que se
fez ativamente presente a todas as discussões e pugnou pela realização de
algumas correções, foi aprovado em primeira e segunda votações, nos dias 19 e
21 de novembro de 2013. A modificação pegou a muitos de surpresa, despertando
na população o interesse pelo conhecimento de sua história, e foi amplamente
divulgada pelos meios de comunicação locais e regionais, inclusive fomentando
reportagens televisivas.
Assim, após árduos esforços, no dia 10 de março de 2014, a partir das 19h, foi
formalmente inaugurada a sede do Instituto Histórico, Geográfico e Cultural de
Garanhuns, no simbólico Dia de Garanhuns. Foi uma noite de júbilo para a
História do município. O casarão de Souto Filho, que havia passado por recente
restauração, recebeu representantes do Poder Público e de instituições afins,
como o Centro de Estudos de História Municipal e o Instituto Histórico e
Geográfico de Vitória de Santo Antão. Na ocasião, foi lançado o selo
comemorativo dos 203 anos, com a participação de um representante dos Correios,
e também o livro "Pingos de Garanhuns", de dona Arlinda da Mota
Valença (volume 1 da Coleção Instituto Garanhuns). Após brilhantes
conferências, entre as quais se notabilizaram as dos confrades Gonzaga de
Garanhuns e Marcílio Reinaux, todos confraternizaram em um coquetel. A mídia
também compareceu em massa e registrou o acontecimento.

Transcorridos esses dois anos, é verdade que ainda
há muito por fazer. O principal desafio continua sendo o de dotar Garanhuns de
um Museu Histórico, inciativa antiga e, no passado, sempre malograda. Mas o
fato é que o Instituto - e, por tabela, toda Garanhuns - já apresentam alguns
feitos a comemorar. Lembramos: a intermediação, junto ao Arquivo Público
Estadual e à Prefeitura, para a reorganização do Arquivo Público Municipal de
Garanhuns; a composição de uma biblioteca, com importantes doações, como a do
Centro de Estudos de História Municipal e a da conterrânea e imortal da
Academia Pernambucana de Letras, Luzilá Gonçalves Ferreira; a participação
ativa por ocasião do Festival de Inverno de 2014, com a realização de uma série
de atividades de cunho memorialístico e cultural (exibição de documentários,
lançamentos de cds e livros, palestras e discussões); e, mais recentemente, a
realização da 1ª Semana do Cinema/Cine Chicó Grossi.
A par disso, o Instituto também tem buscado estreitar vínculos, como as
iniciativas empreendidas junto ao Instituto Histórico e Geográfico de Vitória
de Santo Antão e à Academia Escadense de Letras, e tem até servido de
inspiração para a criação de institutos-irmãos em Catende e Escada.
Os desafios são muitos, sim, mas esta Terra de Simoa Gomes não pode esquecer do
permanente compromisso que tem para com a preservação da sua História,
Geografia e Cultura.
Que venham os próximos capítulos!