TREZENA DE SANTO ANTÔNIO EM GARANHUNS, UM PATRIMÔNIO CULTURAL E RELIGIOSO
Completando em 2026, 240 anos de realização (a partir da data da Freguesia: 1786), a TREZENA DE SANTO ANTÔNIO, se constitui sem dúvida em um patrimônio religioso e cultural da "Terra de Simoa Gomes". Nesse sentido tramita no Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural - CEPPC-PE, processo de registro desse tombamento a nível estadual, provocado em 2016 pela Câmara Municipal de Garanhuns, através do vereador Audálio Ramos Filho, e com parecer técnico do Instituto Histórico Geográfico e Cultural de Garanhuns - IHGCG.
A nível municipal, desde 2023, a Trezena/Festa foi considerada Patrimônio Cultural e Imaterial do município, através de Projeto do vereador Erivan Pita. Ainda recentemente, a Diocese de Garanhuns e Paróquia de Santo Antônio estão realizando importante restauração da Catedral, inaugurada em 1859. Com início com D. Paulo Jackson, o novo Bispo, D. Agnaldo Timóteo, deu prosseguimento com a coordenação do Pároco da Catedral, Pe. Josenildo Bizerra. Há poucos dias foi instalada no topo a nova estátua de Santo Antônio.
O IHGCG compartilhará, a seguir, o Parecer Técnico encaminhado em 2021 ao CEPPC-PE, e que demonstra a importância da tradicional festa do Padroeiro de Garanhuns.
FESTA DE SANTO ANTÔNIO EM (SANTO
ANTÔNIO DOS) GARANHUNS, CONSIDERAÇÕES HISTÓRICAS
O povoamento do interior nordestino no século XVI se deu principalmente através do Rio São Francisco, por ele se embrenharam os portugueses, fundando as primeiras povoações, como Penedo – AL. Missionários franciscanos e de outras ordens, acompanhavam, iniciando o processo de evangelização de vários grupos étnicos indígenas.
Com a
invasão holandesa (1630-1654), houve um avanço paralelo a partir de Vitória de
Santo Antão – PE, e no sentido contrário, da Bahia para os sertões de Sergipe,
Alagoas e Pernambuco. Nesse momento também, se formavam os quilombos,
aldeamentos formados por escravos fugidos, de várias etnias africanas, que
tiveram na Serra da Barriga, na atual União dos Palmares – AL, o seu principal
reduto, com raio de ação que chegava até a área atual do Agreste Meridional de
Pernambuco, com quilombos registrados no Magano, Quilombo, Castainho e Curica;
nas áreas atuais dos municípios de Garanhuns e Brejão.
No final do
século XVII, após a queda da Confederação dos Palmares, toda essa extensa
região estava sob a jurisdição da Capitania do Ararobá, com área de 30 mil km²,
antes disso todo interior pernambucano era parte integrante da Freguesia de
Nossa Senhora da Luz, jurisdição de Olinda. Com data inicial em 1662, a
Capitania do Ararobá tem a presença da Congregação de São Filipe Néri
(Oratorianos), que fundam em Cimbres, atualmente distrito de Pesqueira – PE,
uma Missão para dar assistência aos índios Xucurus.
No início do
século XVIII, a Capitania já está sediada em Santo Antônio do Ararobá
(Garanhuns), pois com a destruição dos quilombos palmarinos, inicia-se
rápida povoação da área, com currais de gado, e a divisão da região em várias
sesmarias. O núcleo urbano é iniciado onde hoje está a Praça Irmãos Miranda,
tendo no início pouco mais de doze residências.
Quanto a
dúvida de qual ano seria efetivamente a criação da Paróquia de Santo Antônio,
hoje Paróquia da Catedral de Santo Antônio, o historiador Alfredo Leite
Cavalcanti afirma ser de 1699 a Freguesia originária, em 1786 somente mudou-se
a nomenclatura, ele corrobora essa certeza citando:
Com a criação do Julgado, que recebeu
o nome de Capitania do Ararobá, e da Freguesia
de Santo Antônio, sob a forma de Curato, em 1699, para aqui se removeram as autoridades, inclusive o Cura, também Vigário da Vara...” (História de Garanhuns, p. 189)
A data
provável da construção da primeira Igreja seria 1716, segundo João de Deus de
Oliveira Dias (Terra dos Garanhuns, 1954). Portanto a presença institucional permanente
da Igreja Católica em Garanhuns, tem ao menos 322 anos, que corresponde a hoje
Paróquia da Catedral de Santo Antônio.
Em 1742 é
reconstruída em alvenaria a primitiva Matriz de Santo Antônio do Ararobá,
no local situado na atual Av. Santo Antônio, em frente ao Banco do Brasil. Em
15 de maio de 1756, Simoa Gomes de Azevedo doa à Confraria das Almas da Matriz
dos Garanhuns, uma quadra de terra, área que abrangia grande parte do atual
centro comercial de Garanhuns; este patrimônio foi incorporado ao patrimônio
nacional (processo judicial de sequestro) em 1855.
A escritura
de doação de parte da Fazenda do Garcia à Confraria das Almas, confirma que já
em 1756 já era freguesia, pois a doação refere-se explicitamente a Igreja
Matriz, e doa-se a uma irmandade (confraria) peculiar a uma paróquia.
Com o
crescimento populacional e criação de novos núcleos urbanos, surgem capelas: São Félix – Buíque (1754); “Jezus, Maria e Joseph”, no sítio
Papacassa”, atual Bom Conselho,
doação do Capitão Mathias da Costa Soares em 12/01/1782. Nossa Senhora do Ó – Altinho (1806); Nossa Senhora da Conceição – Quipapá (1829); Bom Jesus dos Pobres – São Bento do Una (1839). Alfredo Leite
Cavalcanti (História de Garanhuns, p.165), destaca a Capela de Nossa Senhora do
Ó em Altinho, considerada a mais “movimentada
entre todas as outras filiais da Matriz de Santo Antônio de Garanhuns”.
Em 10 de
março de 1811, o Príncipe Regente, futuro D. João VI, cria por Carta Régia, o
Município de Garanhuns, com uma área estimada em 13 mil km², área essa que
equivalia a abrangência pastoral da Freguesia. Na sede, a povoação já contava
com quase cem moradias, tendo a Matriz como centro referencial. Nesse mesmo
ano, com recursos doados em testamento por Leonardo Bezerra Cavalcanti, a
Matriz é reconstruída.
Anos antes, em 1762 exatamente, com a criação da Vila de Cimbres, desmembrada do Julgado de Garanhuns, a Freguesia de Santo Antônio do Ararobá passa a ser Santo Antônio de Garanhuns. Em 1786 a denominação passa a ser de Paróquia de Santo Antônio, data que se tem como referência para a existência contínua da Festa de Santo Antônio, como é comemorado desde então.
O território
da Capitania do Ararobá continua pertencendo em sua maior parte a Freguesia de
Santo Antônio, apenas em 1792 há uma modificação com a criação da Freguesia de
São Félix de Buíque. Outros desmembramentos foram: criação da Freguesia de
Nossa Senhora do Ó, em Altinho (1837/38), saindo da área pastoral de Garanhuns
os atuais municípios de Cupira, Lagoa dos Gatos, Agrestina, e parte de Caruaru,
São Caetano e Catende.
Dos
municípios que compõem ainda a Diocese de Garanhuns, temos a instalação em 1848
da Freguesia de Jesus, Maria e José do Capacaça (Bom Conselho); em 10 de maio
de 1853 (Lei Provincial 309/1853), Bom Jesus dos Pobres (São Bento do Una); em
27 de maio de 1879 (Lei Provincial 1423/1879), Freguesia de Nossa Senhora da
Conceição (Correntes).
Antes dessas
temos a criação em 1766 da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Panema (Águas Belas),
tendo o Pe. José Lopes da Cunha sido o primeiro vigário. Em 1787, D. Maria I
homologou a criação da Freguesia de N.S. da Conceição de Águas Belas.
Em
Garanhuns, em 1855, o Vigário Pe. Nemésio de São João Gualberto começa a
construir a “nova” Matriz, concluída a obra em 1859, já no local onde hoje está
a Catedral de Santo Antônio. Recebendo reformas em 1872 (Frei Caetano de
Messina), em 1906 (Pe. Manoel Pires de Carvalho e Juiz Dr. Joaquim Maurício
Wanderley). A reforma iniciou-se em 1907
e foi concluída em 1909, inclusive com a colocação da estátua de Santo Antônio
encimando o campanário da Matriz, agora Catedral.
A imagem foi esculpida pelo artesão João Bina, vindo de Quipapá. Quanto a antiga Matriz, que era no atual Largo do Colunata, foi designada como Capela de Nossa Senhora da Conceição, até 1891, quando é demolida e tem seus tijolos aproveitados para uso no novo cemitério público.
A Criação da Diocese
A Bula Apostólica, de 02 de agosto de 1918, do Papa Bento XV, cria a Diocese de Garanhuns, sob a semente profícua da Freguesia de Santo Antônio do Ararobá. Foi constituída a Diocese com os municípios de Garanhuns (sede), Águas Belas, Bom Conselho, Correntes, São Bento do Una, Palmeira (Palmeirina), Panelas, Lagoa dos Gatos, Belém de Maria, Catende, Palmares, Água Preta e Barreiros.
REGISTRO FOTOGRÁFICO DA IMPORTÂNCIA DA MATRIZ DE SANTO ANTÔNIO NO ESTADO DE PERNAMBUCO
DIÁRIO DE PERNAMBUCO – EDIÇÃO DE 8 DE DEZEMBRO DE 1917 - CAPA
A Comissão apresentou o patrimônio da recém-criada Diocese:
um prédio na rua principal, doado pelo Cônego Benigno Lyra, no valor de dez
contos de réis (com todo o mobiliário); um saldo em conta bancário no Recife
com quarenta e seis contos e trezentos mil réis. Foram gastos três contos e
setecentos mil réis “para as despesas da
criação do bispado, inclusive a bulla” (Álbum de Garanhuns 1922/23, p.126).
Outra bula papal do Papa Bento XV, de 03 de julho de 1919,
designa como primeiro bispo, o Cônego João Tavares de Moura, que recebeu a
sagração episcopal em 07 de setembro de 1919, na Catedral da Sé em Olinda, na
mesma ocasião foi também sagrado bispo, D. Ricardo Vilella (1º Bispo de Nazaré
da Mata – PE). O Bispo sagrante foi o Arcebispo D. Sebastião Leme.
Em todo esse percurso cronológico, se acentuava, ano após
ano, a importância da devoção ao Padroeiro de Garanhuns, com repercussão em
toda área da abrangência, desde a Capitania do Ororubá, até o atual município
de Garanhuns, cidade polo do Agreste Meridional de Pernambuco, compreendendo em
torno de um milhão de habitantes.
1699 – Criada a Capitania do Ararobá e a Freguesia (Curato) de Santo Antônio do Ararobá, com sede em Garanhuns.
1716 – Provável data da construção da
Matriz de Santo Antônio do Ararobá.
1742 –
Reconstrução em alvenaria, da Matriz de Santo Antônio do Ararobá, situada no
atual Largo do Colunata, voltada para o poente.
1756 – Simoa
Gomes de Azevedo doa a área onde está a Matriz e mais uma quadra de terras ao
redor dela, para a Confraria das Almas. Em 1855 seria sequestrada para o
patrimônio nacional.
1762 – A
Freguesia de Santo Antônio do Ararobá passa ser denominada Santo Antônio de
Garanhuns.
1786 – A
Freguesia passa a ser denominada Paróquia de Santo Antônio
1800 – A jurisdição da Freguesia/Paróquia
passa de Curato para Vicariato.
1811 – O
Príncipe Regente D. João cria o município de Garanhuns, por Carta Régia.
Reconstrução da Matriz, com donativos de Leonardo Bezerra Cavalcanti.
1855/1859 –
Construção da nova Matriz de Santo Antônio, atual Catedral.
1872 – Reforma
da Matriz, tendo o abnegado trabalho do missionário capuchinho Frei Caetano de
Messina.
1906/1909 –
Nova reforma da Matriz de Santo Antônio, tendo à frente o Pe. Manoel Pires de
Carvalho e o Juiz Dr. Joaquim Maurício Wanderley.
1918 – O Papa Bento XV cria a Diocese de
Garanhuns.
1919 –
Nomeação e posse do primeiro Bispo de Garanhuns: D. João Tavares de Moura.
Matriz: Curas, Vigários, Párocos, antes da criação da Diocese
CURATO
1699 - 1725 – Pe. Pedro Tavares da Silva
Sarmento.
1726 - 1754 – Pe.
Manuel de Araújo Cavalcanti.
1755 - 1770 – Pe.
Francisco Ferreira da Silva
1771 – 1775 – Pe. Gonçalo Pereira Ribeiro
1776 -
Pe. João Alves Pimentel
1777 – 1780 - Pe.
João Saraiva de Araújo
1781 – 1782 - Pe.
Manoel do Espírito Santo Saraiva
1783 – 1785 - Pe.
Manoel de Assunção
1786 – 1791 - Pe.
José Lopes da Cunha e Pe. Fabiano da Costa Pereira
1792 – 1800 - Pe.
João da Silva Fonseca
1800 - 1816 – Pe. João da Silva Fonseca.
1817 - 1836 – Pe. Agostinho de Godoy Vasconcelos e Pe. José Enrique de Amorim.
1837 – 1873 - Pe.
Nemésio de São João Gualberto
1874 – 1899 - Pe.
Pedro Pacífico de Barros Bezerra.
1900 – 1907 - Pe.
Manoel Pires de Carvalho
1908 – 1914 - Mons.
Afonso Antero Pequeno.
1914 – 1919 - Cônego
Benigno Lyra
ATUAL NICHO COM IMAGEM DE SANTO ANTÔNIO
REFERÊNCIAS
BARBALHO, Nelson; Cronologia Pernambucana, Subsídios para a História do Agreste e Sertão, Centro de Estudos de História Municipal, Recife, 1982.
CAVALCANTI,
Alfredo Leite; História de Garanhuns, 2ª edição, Centro de Estudos de História
Municipal -CEHM, Recife, 1997.
DIAS, João de
Deus de Oliveira, A Terra dos Garanhuns, Garanhuns, 1954.
LIMA, José
Cláudio Gonçalves de; A Cobertura Jornalística da Hecatombe de Garanhuns 1917.
Livro Rápido Editora, Olinda, 2017.
LOPES, Fátima
Martins; Em Nome da Liberdade – As vilas dos índios do Rio Grande do Norte sob
o Diretório Pombalino no século XVIII – Tese (Doutorado) – UFPE, Recife, 2005.
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