sexta-feira, 12 de junho de 2026

TREZENA DE SANTO ANTÔNIO EM GARANHUNS - 240 ANOS

 TREZENA DE SANTO ANTÔNIO EM GARANHUNS, UM PATRIMÔNIO CULTURAL E RELIGIOSO

CARD DE DIVULGAÇÃO DA TREZENA DE SANTO ANTÔNIO EM 2026

        Completando em 2026, 240 anos de realização (a partir da data da Freguesia: 1786), a TREZENA DE SANTO ANTÔNIO, se constitui sem dúvida em um patrimônio religioso e cultural da "Terra de Simoa Gomes". Nesse sentido tramita no Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural - CEPPC-PE, processo de registro desse tombamento a nível estadual, provocado em 2016 pela Câmara Municipal de Garanhuns, através do vereador Audálio Ramos Filho, e com parecer técnico do Instituto Histórico Geográfico e Cultural de Garanhuns - IHGCG.

    A nível municipal, desde 2023, a Trezena/Festa foi considerada Patrimônio Cultural e Imaterial do município, através de Projeto do vereador Erivan Pita. Ainda recentemente, a Diocese de Garanhuns e Paróquia de Santo Antônio estão realizando importante restauração da Catedral, inaugurada em 1859. Com início com D. Paulo Jackson, o novo Bispo, D. Agnaldo Timóteo, deu prosseguimento com a coordenação do Pároco da Catedral, Pe. Josenildo Bizerra. Há poucos dias foi instalada no topo a nova estátua de Santo Antônio.

        O IHGCG compartilhará, a seguir, o Parecer Técnico encaminhado em 2021 ao CEPPC-PE, e que demonstra a importância da tradicional festa do Padroeiro de Garanhuns.

FESTA DE SANTO ANTÔNIO EM (SANTO ANTÔNIO DOS) GARANHUNS, CONSIDERAÇÕES HISTÓRICAS

         O povoamento do interior nordestino no século XVI se deu principalmente através do Rio São Francisco, por ele se embrenharam os portugueses, fundando as primeiras povoações, como Penedo – AL. Missionários franciscanos e de outras ordens, acompanhavam, iniciando o processo de evangelização de vários grupos étnicos indígenas.

        Com a invasão holandesa (1630-1654), houve um avanço paralelo a partir de Vitória de Santo Antão – PE, e no sentido contrário, da Bahia para os sertões de Sergipe, Alagoas e Pernambuco. Nesse momento também, se formavam os quilombos, aldeamentos formados por escravos fugidos, de várias etnias africanas, que tiveram na Serra da Barriga, na atual União dos Palmares – AL, o seu principal reduto, com raio de ação que chegava até a área atual do Agreste Meridional de Pernambuco, com quilombos registrados no Magano, Quilombo, Castainho e Curica; nas áreas atuais dos municípios de Garanhuns e Brejão.

        No final do século XVII, após a queda da Confederação dos Palmares, toda essa extensa região estava sob a jurisdição da Capitania do Ararobá, com área de 30 mil km², antes disso todo interior pernambucano era parte integrante da Freguesia de Nossa Senhora da Luz, jurisdição de Olinda. Com data inicial em 1662, a Capitania do Ararobá tem a presença da Congregação de São Filipe Néri (Oratorianos), que fundam em Cimbres, atualmente distrito de Pesqueira – PE, uma Missão para dar assistência aos índios Xucurus.

        No início do século XVIII, a Capitania já está sediada em Santo Antônio do Ararobá (Garanhuns), pois com a destruição dos quilombos palmarinos, inicia-se rápida povoação da área, com currais de gado, e a divisão da região em várias sesmarias. O núcleo urbano é iniciado onde hoje está a Praça Irmãos Miranda, tendo no início pouco mais de doze residências.

        Quanto a dúvida de qual ano seria efetivamente a criação da Paróquia de Santo Antônio, hoje Paróquia da Catedral de Santo Antônio, o historiador Alfredo Leite Cavalcanti afirma ser de 1699 a Freguesia originária, em 1786 somente mudou-se a nomenclatura, ele corrobora essa certeza citando:

Com a criação do Julgado, que recebeu o nome de Capitania do Ararobá, e da Freguesia de Santo Antônio, sob a forma de Curato, em 1699, para aqui se removeram as autoridades, inclusive o Cura, também Vigário da Vara...” (História de Garanhuns, p. 189)

A data provável da construção da primeira Igreja seria 1716, segundo João de Deus de Oliveira Dias (Terra dos Garanhuns, 1954). Portanto a presença institucional permanente da Igreja Católica em Garanhuns, tem ao menos 322 anos, que corresponde a hoje Paróquia da Catedral de Santo Antônio.

Em 1742 é reconstruída em alvenaria a primitiva Matriz de Santo Antônio do Ararobá, no local situado na atual Av. Santo Antônio, em frente ao Banco do Brasil. Em 15 de maio de 1756, Simoa Gomes de Azevedo doa à Confraria das Almas da Matriz dos Garanhuns, uma quadra de terra, área que abrangia grande parte do atual centro comercial de Garanhuns; este patrimônio foi incorporado ao patrimônio nacional (processo judicial de sequestro) em 1855.

        A escritura de doação de parte da Fazenda do Garcia à Confraria das Almas, confirma que já em 1756 já era freguesia, pois a doação refere-se explicitamente a Igreja Matriz, e doa-se a uma irmandade (confraria) peculiar a uma paróquia.

        Com o crescimento populacional e criação de novos núcleos urbanos, surgem capelas: São Félix – Buíque (1754); “Jezus, Maria e Joseph”, no sítio Papacassa”, atual Bom Conselho, doação do Capitão Mathias da Costa Soares em 12/01/1782. Nossa Senhora do Ó – Altinho (1806); Nossa Senhora da Conceição – Quipapá (1829); Bom Jesus dos Pobres – São Bento do Una (1839). Alfredo Leite Cavalcanti (História de Garanhuns, p.165), destaca a Capela de Nossa Senhora do Ó em Altinho, considerada a mais “movimentada entre todas as outras filiais da Matriz de Santo Antônio de Garanhuns”.

        Em 10 de março de 1811, o Príncipe Regente, futuro D. João VI, cria por Carta Régia, o Município de Garanhuns, com uma área estimada em 13 mil km², área essa que equivalia a abrangência pastoral da Freguesia. Na sede, a povoação já contava com quase cem moradias, tendo a Matriz como centro referencial. Nesse mesmo ano, com recursos doados em testamento por Leonardo Bezerra Cavalcanti, a Matriz é reconstruída.

       Anos antes, em 1762 exatamente, com a criação da Vila de Cimbres, desmembrada do Julgado de Garanhuns, a Freguesia de Santo Antônio do Ararobá passa a ser Santo Antônio de Garanhuns. Em 1786 a denominação passa a ser de Paróquia de Santo Antônio, data que se tem como referência para a existência contínua da Festa de Santo Antônio, como é comemorado desde então.

        O território da Capitania do Ararobá continua pertencendo em sua maior parte a Freguesia de Santo Antônio, apenas em 1792 há uma modificação com a criação da Freguesia de São Félix de Buíque. Outros desmembramentos foram: criação da Freguesia de Nossa Senhora do Ó, em Altinho (1837/38), saindo da área pastoral de Garanhuns os atuais municípios de Cupira, Lagoa dos Gatos, Agrestina, e parte de Caruaru, São Caetano e Catende.

        Dos municípios que compõem ainda a Diocese de Garanhuns, temos a instalação em 1848 da Freguesia de Jesus, Maria e José do Capacaça (Bom Conselho); em 10 de maio de 1853 (Lei Provincial 309/1853), Bom Jesus dos Pobres (São Bento do Una); em 27 de maio de 1879 (Lei Provincial 1423/1879), Freguesia de Nossa Senhora da Conceição (Correntes).

        Antes dessas temos a criação em 1766 da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Panema (Águas Belas), tendo o Pe. José Lopes da Cunha sido o primeiro vigário. Em 1787, D. Maria I homologou a criação da Freguesia de N.S. da Conceição de Águas Belas.

        Em Garanhuns, em 1855, o Vigário Pe. Nemésio de São João Gualberto começa a construir a “nova” Matriz, concluída a obra em 1859, já no local onde hoje está a Catedral de Santo Antônio. Recebendo reformas em 1872 (Frei Caetano de Messina), em 1906 (Pe. Manoel Pires de Carvalho e Juiz Dr. Joaquim Maurício Wanderley).  A reforma iniciou-se em 1907 e foi concluída em 1909, inclusive com a colocação da estátua de Santo Antônio encimando o campanário da Matriz, agora Catedral.

MATRIZ DE SANTO ANTÔNIO - 1893 (AO LADO ANTIGO CEMITÉRIO)

        A imagem foi esculpida pelo artesão João Bina, vindo de Quipapá. Quanto a antiga Matriz, que era no atual Largo do Colunata, foi designada como Capela de Nossa Senhora da Conceição, até 1891, quando é demolida e tem seus tijolos aproveitados para uso no novo cemitério público.

INTERIOR DA CATEDRAL DE SANTO ANTÔNIO (2026)

A Criação da Diocese

     Logo após a Hecatombe de 1917, foram organizadas comissões para criação da Diocese de Garanhuns; iniciativa do Arcebispo de Olinda e Recife, Dom Sebastião Leme da Silveira Cintra (O Bispado de Olinda passa a ser Arcebispado em 1901, e em 1918, pela Bula “Cum urbs Recife” do Papa Bento XV, passou a denominar-se Arquidiocese de Olinda e Recife). Importante ressaltar o apoio do pároco local, Cônego Carlos Pereira Benigno de Lyra.

        A Bula Apostólica, de 02 de agosto de 1918, do Papa Bento XV, cria a Diocese de Garanhuns, sob a semente profícua da Freguesia de Santo Antônio do Ararobá. Foi constituída a Diocese com os municípios de Garanhuns (sede), Águas Belas, Bom Conselho, Correntes, São Bento do Una, Palmeira (Palmeirina), Panelas, Lagoa dos Gatos, Belém de Maria, Catende, Palmares, Água Preta e Barreiros.

REGISTRO FOTOGRÁFICO DA IMPORTÂNCIA DA MATRIZ DE SANTO ANTÔNIO NO ESTADO DE PERNAMBUCO

DIÁRIO DE PERNAMBUCO – EDIÇÃO DE 8 DE DEZEMBRO DE 1917 - CAPA

A Comissão apresentou o patrimônio da recém-criada Diocese: um prédio na rua principal, doado pelo Cônego Benigno Lyra, no valor de dez contos de réis (com todo o mobiliário); um saldo em conta bancário no Recife com quarenta e seis contos e trezentos mil réis. Foram gastos três contos e setecentos mil réis “para as despesas da criação do bispado, inclusive a bulla” (Álbum de Garanhuns 1922/23, p.126).

Outra bula papal do Papa Bento XV, de 03 de julho de 1919, designa como primeiro bispo, o Cônego João Tavares de Moura, que recebeu a sagração episcopal em 07 de setembro de 1919, na Catedral da Sé em Olinda, na mesma ocasião foi também sagrado bispo, D. Ricardo Vilella (1º Bispo de Nazaré da Mata – PE). O Bispo sagrante foi o Arcebispo D. Sebastião Leme.

Em todo esse percurso cronológico, se acentuava, ano após ano, a importância da devoção ao Padroeiro de Garanhuns, com repercussão em toda área da abrangência, desde a Capitania do Ororubá, até o atual município de Garanhuns, cidade polo do Agreste Meridional de Pernambuco, compreendendo em torno de um milhão de habitantes.

CARTÃO POSTAL DA MATRIZ DE SANTO ANTÔNIO PROVAVELMENTE DE 1919

                                          Linha Cronológica

          1699 – Criada a Capitania do Ararobá e a Freguesia (Curato) de Santo Antônio do Ararobá, com sede em Garanhuns.

         1716 – Provável data da construção da Matriz de Santo Antônio do Ararobá.

1742 – Reconstrução em alvenaria, da Matriz de Santo Antônio do Ararobá, situada no atual Largo do Colunata, voltada para o poente.

1756 – Simoa Gomes de Azevedo doa a área onde está a Matriz e mais uma quadra de terras ao redor dela, para a Confraria das Almas. Em 1855 seria sequestrada para o patrimônio nacional.

1762 – A Freguesia de Santo Antônio do Ararobá passa ser denominada Santo Antônio de Garanhuns.

1786 – A Freguesia passa a ser denominada Paróquia de Santo Antônio

         1800 – A jurisdição da Freguesia/Paróquia passa de Curato para Vicariato.

1811 – O Príncipe Regente D. João cria o município de Garanhuns, por Carta Régia. Reconstrução da Matriz, com donativos de Leonardo Bezerra Cavalcanti.

1855/1859 – Construção da nova Matriz de Santo Antônio, atual Catedral.

1872 – Reforma da Matriz, tendo o abnegado trabalho do missionário capuchinho Frei Caetano de Messina.

1906/1909 – Nova reforma da Matriz de Santo Antônio, tendo à frente o Pe. Manoel Pires de Carvalho e o Juiz Dr. Joaquim Maurício Wanderley.

          1918 – O Papa Bento XV cria a Diocese de Garanhuns.

1919 – Nomeação e posse do primeiro Bispo de Garanhuns: D. João Tavares de Moura.

                 Matriz: Curas, Vigários, Párocos, antes da criação da Diocese

                                             CURATO

1699 - 1725 – Pe. Pedro Tavares da Silva Sarmento.

1726 - 1754 – Pe. Manuel de Araújo Cavalcanti.

1755 - 1770 – Pe. Francisco Ferreira da Silva

1771 – 1775 – Pe. Gonçalo Pereira Ribeiro

1776 -             Pe. João Alves Pimentel

1777 – 1780 - Pe. João Saraiva de Araújo

1781 – 1782 - Pe. Manoel do Espírito Santo Saraiva

1783 – 1785 - Pe. Manoel de Assunção

1786 – 1791 - Pe. José Lopes da Cunha e Pe. Fabiano da Costa Pereira

1792 – 1800 - Pe. João da Silva Fonseca

                             VICARIATO

1800 - 1816 – Pe. João da Silva Fonseca.

1817 - 1836 – Pe. Agostinho de Godoy Vasconcelos e Pe. José Enrique de Amorim.

1837 – 1873 - Pe. Nemésio de São João Gualberto

1874 – 1899 - Pe. Pedro Pacífico de Barros Bezerra.

1900 – 1907 - Pe. Manoel Pires de Carvalho

1908 – 1914 - Mons. Afonso Antero Pequeno.

1914 – 1919 - Cônego Benigno Lyra

TERMO DE POSSE DO PE. JOSÉ HENRIQUE D' AMORIM - 1828
FONTE: LIVRO DE BATISMO DA PARÓQUI DE SANTO ANTÔNIO DISPONÍVEL EM WWW.FAMILYSEARCH.COM


ATUAL NICHO COM IMAGEM DE SANTO ANTÔNIO

NOVA IMAGEM DE SANTO ANTÔNIO (2026)


REFERÊNCIAS

        BARBALHO, Nelson; Cronologia Pernambucana, Subsídios para a História         do Agreste e Sertão, Centro de Estudos de História Municipal, Recife, 1982.

CAVALCANTI, Alfredo Leite; História de Garanhuns, 2ª edição, Centro de Estudos de História Municipal -CEHM, Recife, 1997.

DIAS, João de Deus de Oliveira, A Terra dos Garanhuns, Garanhuns, 1954.

LIMA, José Cláudio Gonçalves de; A Cobertura Jornalística da Hecatombe de Garanhuns 1917. Livro Rápido Editora, Olinda, 2017.

LOPES, Fátima Martins; Em Nome da Liberdade – As vilas dos índios do Rio Grande do Norte sob o Diretório Pombalino no século XVIII – Tese (Doutorado) – UFPE, Recife, 2005.


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